Le Cul du Tabou

"Tudo começou há algum tempo atrás na Ilha do Sol..." Era uma vez dois grandes amigos que resolveram, em pleno sol de Ipanema, criar um livro de contos. Ocorre que a cerveja era tanta que o nome do livro se esvaiu...Mas, graças à Nossa Senhora dos Bons Feriados, os amigos resolveram retomar a empreitada... Ainda desmemoriados, decidiram criar esse blog, com o objetivo de discorrer sobre temas polêmicos, histórias engraçadas e outras curiosidades...

Monday, June 25, 2018

O EREMITA E SUAS EPIFANIAS



O Caboclo Sete Flechas foi a primeira entidade da Umbanda com quem me consultei. Há quase vinte anos, naquela casa estranha da Dona Jamile, a primeira mãe-de-santo que conheci. Com suas roupas brancas meio esfarrapadas, feitas com rendas sintéticas, usando aquele turbante estranho, “meio” árabe, ela dava passagem ao Caboclo Sete Flechas, com sua linguagem torta, seu palavreado que não era indígena, não era africano, nem português. Era, talvez, um tipo de “umbandês” que muitas vezes necessita de intérpretes. 

“Quando ele vem, lá do Oriente, ele vem com ordens de Oxalá, sua missão é muito nobre, espalhar a caridade e a seus filhos ajudar. Eu saravo Papai Xangô, Kaô, eu saravo Papai Oxalá, eu saravo Seu Sete Flechas ele é o nosso rei e o chefe desse kazuá”. 

Assim ele chegou naquela noite de sexta-feira. A filha de Dona Jamile fez a preleção do evangelho (que era a bíblia, na verdade) e, de repente, Sete Flechas estalava os dedos, para que ela parasse de ler. Lá estava a lição da noite, a sabedoria revelada através da bíblia, por um caboclo da Umbanda que usava turbante. 

E lá aprendi, pela primeira vez, a saudar uma entidade, batendo os punhos com os dele. Sete Flechas me disse que eu havia sido um eremita em várias vidas e que, nessas várias, eu largava a missão de curador e saía andando pelo mundo, procurando algo a mais, algo diferente. Até hoje não sei como isso acontece, mas aconteceu aquele dia: o caboclo leu a minha alma. E-r-e-m-i-ta. Era assim que eu me sentia. Secretamente, era assim que eu me denominava. Era desse modo que eu me via. Sem parada. Sem casa. Sem rumo. E ele disse que, por ter largado tantas vezes a missão de curador que eu passava por tantas dificuldades naquele momento, para terminar meus estudos. Mesmo que fosse metáfora ou fantasia, essa explicação serviu como um bálsamo para aquele peso que eu sentia. Ele me ofereceu uma explicação para a minha infelicidade. 

Sete Flechas terminava sempre a consulta perguntando: “Que quere yo, fio meu?”, que queria dizer “O que mais você quer de mim, meu filho?” e eu sempre respondia que não queria mais nada, e só queria agradecer. E ele partiu, dizendo que ia me ajudar. De fato, me ajudou muito. Hoje estou aqui, mais de vinte anos depois, vivo, formado, mestre, doutor, professor, muitas páginas de currículo, muitos diplomas. Mais que isso: sinto-me cada dia mais feliz e mais realizado. Mas isso não significa que não me sinta insatisfeito. Parece que essa insatisfação não acaba nunca. Não pensem que a minha insatisfação é de ganância, cobiça, esse afã tão comum entre colegas de profissão, essa avidez por acumular riquezas. Nada disso. É minha alma que permanece inquieta mesmo. 

Não é à toa que, ao concluir o mestrado, queria colocar na tese uma citação do Nietsche que não fosse pessimista. E eu encontrei: 

“Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.Onde leva? Não perguntes, segue-o!”

Também ao concluir o texto do meu doutorado, uma música da aula de religião do meu tempo de ginásio, chamada “Caminheiro” não saía da minha cabeça: 

“Perdido, confuso, vazio, sozinho na estrada, tentando encontrar um caminho que seja o meu, não importa se é duro, terei que buscar. Caminheiro, você sabe, não existe caminho. Passo a passo, pouco a pouco e o caminho se faz.” 

Sou eremita mesmo. Há uma solidão no meu caminhar, há uma necessidade de continuar sempre andando, que jamais se esgota. A citação do filósofo, a música da aula de religião, as palavras do caboclo. Tudo se traduz numa necessidade de caminhar em busca de algo que eu não sei – ou não sabia - exatamente o que é. Até mesmo outras frases e canções que falem desse caminhar incessante me prendem, me capturam. Sou pego pelo arquétipo do eremita, do andarilho solitário. 

I still haven’t found what I’m looking for. Eu ainda não encontrei o que estou procurando. Cantam Cher ou Bono para mim. 

Hoje, durante uma conversa com um amigo, essas memórias vieram à tona. Conversando sobre o Candomblé, sobre essa minha caminhada pela espiritualidade, ele “acordou” a minha memória. Ele chamou a minha atenção para o fato de que as minhas necessidades de busca, de curiosidade, de ímpetos, são lampejos, folguedos e explosões da minha memória ancestral. Depois de nossa conversa, fiz uma reflexão sobre essa longa caminhada nessa vida terrena. Brinquei, meio que falando sério, que devo ter saído da África muitas encarnações atrás, talvez arrancado, talvez fugido. Andei por tantos caminhos, embranqueci, diluí meu sangue negro por diversas vidas e trilhas. E de repente, eu me deparo com as religiões afro-brasileiras. Eu me lembro como se fosse hoje o primeiro dia que ouvi o som do atabaque no terreiro de Dona Jamile. Sem nenhum medo e com uma sensação de familiaridade inexplicável. Naquele momento eu pude entender tudo, ou quase tudo. Lembro de dizer para mim mesmo: “é aqui que eu quero ficar”. Esse “aqui” que não era aquele lugar, mas aquele lugar dentro de mim onde o som dos atabaques ecoava a minha própria alma. 

Agora, emocionado enquanto transformo esses pensamentos em frases, sou capaz de enxergar, de me sentir acordado, como Paulo dizendo aos Coríntios: “estou acordado e todos dormem”. Estou acordado, estou vivo, estou são. É no Candomblé que me reconecto a minha ancestralidade, é pisando no chão de um terreiro, descalço, ao som dos atabaques, que ativo essa memória e me sinto vivo, eterno, imortal. Eterno e imortal como alma. Eterno e imortal como as memórias de todas as vidas vividas, minhas e de meus ancestrais. É “virado” em meu Orixá, que refaço os caminhos dessa ancestralidade, que reavivo cada sensação já vivida, guardada nesse pequeno cofre de memórias eternas. 

Eu ainda não sei se eu me encontrei. Eu nem sei se esse encontro é definitivo ou se devo continuar andando pelo mundo, encontrando coisas e pessoas que reativam essa memória, que acordam minha pele, meu corpo, minhas células para a eternidade de uma vida sem vim, uma vida em espírito. 

Hoje, numa madrugada de segunda para terça, na transição dos domínios de Exu e de Ogun, orixás que regulam os nossos caminhos, das encruzilhadas às estradas, escrevo, desabafo, me tranquilizo ao poder compreender que tudo o que sinto e vivo é apenas caminho, caminhar, estrada, trilha. Todo esse barulho da minha alma, da minha cabeça e do meu coração é apenas o barulho dos meus passos. Não sei para onde vou, não sei exatamente como caminharei. Tenho apenas a certeza de que devo continuar, porque Xangô e Oxum me levam, porque eles sabem o que eu ainda não sei, porque não foi revelado. 

Friday, June 15, 2018

ESPELHOS, PARA QUE TÊ-LOS?




Nesses últimos dias, eu tenho pensado muito em espelhos. Cenas do passado, histórias sobre espelhos, mitos, preceitos religiosos. Até zapeando pelas fotos arquivadas em meu telefone celular, fico reparando no tanto de fotos que tenho fazendo poses, eróticas ou não, ao espelho. 
Esse deleite pelo espelho, diga-se, pela minha imagem nele refletida, tem sua razão de ser. Houve um tempo, num passado bem remoto, que eu fugia dele. Eu fugia de olhar-me ao espelho porque não gostava do que via. Primeiro por não gostar de mim, por me achar feio, por sentir-me uma cópia do meu genitor-rejeitador. Sentia raiva das pessoas que me chamavam pelo diminutivo de seu nome e sentia raiva de mim mesmo por ser uma cópia rejeitada dele. Também não me era possível gostar daquela imagem que colegas de escola e familiares caçoavam por ser gordo, por não saber andar descalço no barro ou no asfalto, por ter tetas grandes, por não ter coragem de tirar a camiseta na praia, do futebol forçado, suando de calor e dizendo que estava tudo bem. Talvez por último, por sentir medo de olhar para o espelho e enxergar-me gay. 
Da adolescência e dos espelhos, guardo arriscadas e anedóticas incursões pela sexualidade.
Lá pelos onze anos de idade, grandão que eu era, já estava apto a ficar sozinho em casa. Adorava quando minha mãe saía e podia bater sossegado as minhas punhetas, testando sensações diversas, fosse colocando pasta de dente no pinto ou sugando o pau punheteiro recém descoberto com o sugador de leite abandonado no armário do banheiro. Adorava observar como o pênis se deformava naquela bomba de vidro e nela acabava gozando, lambuzando toda aquela bomba. É engraçado como a “viadagem” mora dentro da gente, mesmo antes de sabermos que ela nos habita: anos depois, visitando sex shops nos arredores gays de Nova Iorque, me deparo com aquelas bombas de sucção peniana. 
Outras vezes me deliciava colocando roupas da minha mãe, como um maiô verde bandeira ou uma saída de banho amarela. Passava blush e batom, me divertia escondendo as bolas e pau por entre as pernas, subia no bidê e ficava dançando, diante do espelho, como uma Chacrete. Um dia, no auge da minha performance, a campainha toca. Quase despenco do bidê, saio correndo a esconder aquelas roupas e a arrancar as maquiagens. Abro a porta para minha tia e meus primos e, defensivamente, pela paranoia de ser flagrado ainda maquiado, digo que brincava de índio. Nunca soube se perceberam ou se acreditaram. 
Véspera de Santo Antonio na mesma época. Preparávamos quitutes para a festa junina na cozinha do sobrado. Era uma época que eu era super afeito aos livros de simpatias, e resolvi seguir uma delas. Perto da meia-noite, subo correndo ao quarto da minha irmã, que tinha um espelho grande na porta do armário. Quarto escuro, vela na mão e de frente para o espelho: assim era a simpatia para saber com quem iria me casar. De repente, tudo escurece a minha volta e surge o contorno de uma pessoa no espelho. Saio correndo e chego à cozinha pálido, assustado. Anos depois, meu primeiro namorado suspeita, quando lhe conto essa história, que o que me assustou foi ver uma silhueta masculina naquele espelho. E até que faz sentido. 
Quando nos iniciamos no Candomblé, somos proibidos de olhar ao espelho por um longo período. Alguns anos se passaram e sou um pouco mais capaz de refletir sobre alguns interditos existentes na religião e penso que essa questão do espelho parece muito mais um pensamento colonizado, “emprestado” da magia e da feitiçaria medieval europeia do que realmente um preceito trazido da África. Até porque não existiam espelhos na África. Enquanto escrevia, fiquei pensando sobre isso e cheguei a conversar com um “mais velho” do Candomblé, que concordou com minha opinião. Não existiam espelhos, mas o Abebê que as senhoras yabás empunham em suas maravilhosas danças, era feito de metal polido, que refletia imagens. 
De todo modo, o interdito do espelho permanece ainda em muitas casas de Candomblé. Algumas pessoas me disseram que isso se deve ao fato de que os espelhos são portais místicos que podem atrair energias ruins para aquele iniciado que está muito sensível. Mas eu penso que faz mais sentido pensar que, nesse período de resguardo estamos passando, por um luto de nós mesmos, da pessoa que éramos antes de nascermos para o orixá. Olhar para o espelho pode assustar, tanto por esse antigo ser que está indo embora quanto pelo novo que ainda desconhecemos. 
Eu me lembro que, durante o período em que estava recolhido para a iniciação, da sensação de estranheza que eu tinha em não ver nunca o meu rosto. Ficava imaginando como estariam minhas feições, minha cabeça raspada, eu com a cara lisa após tanto tempo usando barba. Certa noite me assustei ao deparar com um reflexo deformado de mim mesmo numa face metálica lisa do adereço de um orixá. E lembro quando me olhei ao espelho pela primeira vez após esse período. Eu tinha a mesma cara de antes, mas me enxergava modificado. Modificado de um jeito tal que sentia que era a primeira vez que me sentia inteiro. Eu uno, com meu orixá, com minha devoção, liso, cara limpa, sem pelos no corpo, roupas simples, dormindo numa esteira, num chão frio. Em meu pequeno diário de “bordo”, deixei essa pergunta que pairava em minha mente: “Quem serei eu após essa feitura?”
A imagem do espelho me fez pensar também na música “Índios”, do Legião Urbana: “nos deram espelhos, vivemos num mundo doente”. E fiquei pensando que, se não existiam espelhos na África e se os espelhos foram dados às orixás como símbolos da vaidade feminina, mesmo que possuam a conotação símbólica de olharmos para nós mesmos, será que precisamos mesmo deles? Sim, precisamos. Seja ele feito de lâminas de plástico dos supermercados populares, do metal polido das yabás, do reflexo produzido nas águas de mares e rios ou do cristal europeu mais caro e elegante, o espelho vai conter sempre essa dualidade, a possibilidade de enxergar-se e a possibilidade admirar-se, exageradamente ou não. 
Narciso acha feio o que não é espelho, disse Caetano. Narciso, extasiado com a própria beleza, mergulha nas profundezas do rio em busca de sua própria imagem e se afoga. A narcísica selfie, o espelho contemporâneo, aprisiona a quase todos. Fazer uma selfie, produzir-se em roupas e locais para mostrar-se a si e para si mesmo, mas também aos outros o quanto se é lindo e admirável, um espelho que aprisiona almas. 
Devo confessar que eu me perdi nesse labirinto de imagens que comecei a trilhar. Escrevendo, pensando, refletindo sobre o espelho, me distanciei de uma ideia inicial da qual nem me lembro mais, mas que foi o ponto de partida para traçar essas linhas. Talvez seja para poder lembrar sempre que os espelhos não são fidedignos e podem ser traiçoeiros. Espelhos de lojas, espelhos de cabeleireiros, são feitos deformados para tornarem ou fazerem com que as pessoas se sintam mais bonitas. Espelhos são usados em ambientes públicos e privados para criar a ilusão de ambientes maiores. Espelhos em motéis podem esconder câmeras de segurança e pode ter alguém lá, assistindo a sua performance erótica. 
Verdade ou vaidade? Nunca saberemos.

O SAGRADO EM MIM



Eu sempre senti necessidade de buscar e vivenciar as coisas espirituais. Na infância, após a passagem de minha avó Izolina, eu me lembro de ficar tempos enormes fitando aquela enorme estrela no céu, imaginando que poderes infinitos vinham de lá e que eu era abastecido de suas energias. Era lá, naquela estrela distante, que morava um tipo de Deus que via tudo, sabia de tudo e atendia nossos pedidos. Em meu coração de menino saudoso daquela avó recém partida, sentia que eu a encontrava lá. 

Meu avô Armando, enquanto morou comigo, possuía o hábito de ler o evangelho e rezar todas as noites, com a foto de minha avó ao lado de seus livros. Eu rezava com ele e me sentia extremamente seguro e protegido ao lado dele. Era como se ele próprio, com sua barba branca e seu jeito paciente, fosse meu anjo, meu deus. 

Mesmo minha mãe, com seu equivocado catolicismo recheado de hipocrisias e incoerências, tentou, devo reconhecer, me aproximar de Deus. Comprava os livrinhos católicos com as orações para a noite, me levava na missa aos domingos e quase conseguiu me conduzir para a tal da crisma, mas eu fugi a tempo de cometer tal desperdício. Da fé católica eu preservo o amor ao Frei Orestes que me batizou e uma enorme  admiração pelos monges beneditinos. Ainda frequento igrejas e as vejo como um templo sagrado, bastante propício a rezar quando necessário. Na minha conexão com o Candomblé, aprendi a conhecer e a admirar os segredos das tradições africanas escondidos nas igrejas, sobretudo na Bahia. 

Minha tia Lilian, que também é minha madrinha, soube realmente exercer a função que é delegada a madrinhas e padrinhos: ela cuidou de mim, em vários aspectos, mas principalmente da minha espiritualidade. Ela, em silêncio e discretamente, nutriu em mim o gosto pelas coisas espirituais e por muitos anos me ensinou e me deu acesso a diversos ensinamentos, me presenteando com livros e fitas cassete de assuntos esotéricos. A cada tarô que minha mãe obrigava a me desfazer, tia Lilian comprava um novo para mim. 

Num dado momento do meu processo de iniciação, pude acessar uma memória ancestral e me reconectar ao meu bisavô Luís e verificar que meu elo de ligação com o Candomblé e com as raízes africanas vinha pelas suas mãos espirituais. Era curioso como minha mãe se referia a ele como “macumbeiro” e “uma pessoa má”, alegando que ele teria feito magia para que meus avós não se casassem. 

Quando meu avô Armando faleceu, me afastei de sua esposa, seus filhos e netos. Anos mais tarde, pude refletir o quanto ela gostava de mim, o quanto me acolheu como um verdadeiro neto e o quanto essas pessoas fizeram parte da minha vida de uma forma boa, afetiva. Resolvi encontra-los e fui recebido tão afetuosamente que me arrependi por ter me distanciado um dia. Mas a surpresa maior foi perceber que muitos deles possuíam ligações com os cultos afro-brasileiros e isso me trouxe uma sensação de pertença muito maior do que eu possuía com outras pessoas da minha família. 


Ser gay e “macumbeiro” sempre pareceram coisas estranhas, caminhos desviantes de uma rota familiar. Por um momento pareciam “escolhas” para me diferenciar dessa origem familiar com a qual eu não me identificava. Mas a coisa é bem mais profunda. Porque do mesmo modo que ser gay não é uma escolha - porque a escolha não consiste em “ser”, mas assumir-se ou não, viver desejos e experiências em consonância com a sua natureza ou não -  vejo da mesma forma a presença do Candomblé em minha vida: eu não escolhi e nem fui escolhido, porque esse ser escolhido também deixa esse rastro colonizado de ser “eleito”, à moda tão atual dos cristãos. Tratam-se de encontros. Encontros com a nossa verdadeira natureza e destino. 

Após a minha iniciação no Candomblé, meus pensamentos se voltaram muito para o conhecimento da minha ancestralidade e essa sensação de “outsider” se dissipou. Cada pegada “afro” que encontro pelo caminho vai constituindo um mapa da minha espiritualidade, da minha conexão com o meu passado primordial e vai edificando células de completude da minha alma. Eu queria muito poder encontrar, no passo dessas pegadas, o ancestral negro que foi deixando essa herança espiritual através de gerações, chegando até mim e que posteriormente será continuada nos que estão chegando depois de mim. Minha mãe de santo, em nosso primeiro encontro para o jogo de búzios, disse: “Tem um negão aí dentro”, e eu sabia que era verdade. Sim, é verdade que existe esse negão, meu pai, meu rei Xangô que me habita e se expande a tal ponto que me transformo nele. Eu viro no “santo”. Eu viro no orixá. Não só no transe, mas na vida, eu viro esse orixá que mora dentro de mim. Ele contém, abarca, mantém a força, a potência dessa ancestralidade. Ele é um DNA vivo. E eu não sou apenas seu instrumento. Eu sou a continuidade, o continuum, a perpetuação dessa corrente de ancestralidade, desse fio interminável de seres e energias. 

Essa grandiosa pertença, como já disse em algum texto anterior, não me torna melhor que ninguém, mais evoluído, mais sábio para o outro. Ela me faz ter força para seguir o meu caminho e faz com que eu me sinta melhor, comigo mesmo, mais inteiro, mais completo. Eu acumulo conhecimentos, como os seixos rolados que catava em rios e ruas de terra na infância, como as conchas do mar que encontrei na areia. Talvez eu desenvolva e acumule sabedoria através desses conhecimentos e experiências. Talvez cada dia que passe eu ame mais a vida e me sinta mais fortalecido para driblar os obstáculos. Talvez todo esse caminhar possa servir para ajudar algumas pessoas, ensinando passos e descaminhos por onde eu já tenha andado. Digo “talvez” porque é talvez mesmo. Porque tenho poucas certezas nessa vida. Cada vez menos. 

Saturday, April 21, 2018

XANGÔ, O REI QUE VIVE DENTRO DE MIM.



Quando eu conheci o Candomblé, há mais de 20 anos, eu não entendia nada do seu funcionamento. Anos depois, quando o rio da minha vida foi rumando ao encontro com esse grande mar, eu passei a conhecer, um pouquinho a cada dia, seus ritos, suas tradições, seus ensinamentos. Cada dia que passa, eu vejo que se abrem várias novas caixas de segredos e saberes. Acho que não termina nunca. O Candomblé é um sacerdócio e, mesmo que o seu adepto nunca se torne ou nunca receba um título sacerdotal, ele inscreve um percurso sacerdotal, segue toda a vida aprendendo e, em algum momento se torna, também, um transmissor de conhecimento. É um culto à troca, ao intercâmbio, onde o maior valor, a maior moeda, é o aprendizado.

No momento em que eu decidi levar adiante a minha iniciação, uma escolha que já havia feito antes mesmo do meu nascimento, lá no Orun, eu me entreguei de cabeça e entreguei a minha cabeça ao meu Orixá e à minha mãe de santo e não pairava nenhuma dúvida quanto a estar no caminho corretíssimo. Quando nasci para Xangô e ele nasceu em mim, confirmei essa certeza, certeza que se mantém até hoje. Foram meses de restrições e cuidados, gastos, tempo, abdicações. Mas se me perguntarem, direi que faria de novo e de novo e de novo.

E o que eu procurava com a iniciação? A primeira coisa que buscava era esse encontro com a parte que faltava, esse brilho de Xangô dentro do meu peito, essa onda de calor e energia percorrendo cada milímetro do meu corpo e me reconectando a um DNA ancestral, à minha ancestralidade. Sentir-me mais vivo ao acordar a minha ancestralidade em meu corpo.

No aspecto psicológico, encontrar-me com Xangô dentro de mim também trouxe um bálsamo para a minha sensação de orfandade, de órfão de genitor vivo, de ausência de pai, de quase uma vida inteira de rejeição e violência. Ter Xangô como pai faz com que eu não precise ter um pai carnal. Ter Xangô como pai também traz uma brasa, um calor de amor igualzinho ao amor que emanava do meu avô Armando, meu único pai carnal na Terra. Um homem que me amou desde quando eu morava na barriga de sua filha até o dia em que retornou à massa primordial. Um homem de verdade, como meu Pai Xangô.

Ser do Candomblé, ser “do santo”, não se resume apenas a uma religião ou culto. Ser de Candomblé imprime um modo de viver e de enxergar a vida, uma forma específica de ver o mundo. Isso não me torna melhor do que ninguém. Sou melhor  para mim mesmo. Através da iniciação eu pude revisitar meus medos, meus desejos, renovar minha fé, rever minhas escolhas e melhorá-las. Acho que escolho melhor quase tudo em minha vida porque sinto ter ampliado meu campo de visão, junto com a minha sensibilidade, como se esse meu Pai colocasse grande holofotes a minha frente, tornando mais claro o meu caminhar.

Não enriqueci materialmente, mas o caminho da prosperidade material se abriu para mim, porque minhas escolhas estão mais alinhadas com meus desejos, com meus sentimentos. Xangô não permite que nada me falte, mas sempre com trabalho e luta.

Encontrei-me emocionalmente, hoje, muito mais consonante com o que eu desejava para minha vida. Já amei anteriormente, mas sinto hoje que meu amor, meu companheiro é exatamente o que eu pedi a “Deus”, exatamente o que almejava viver numa relação. É claro que isso se deve, numa parte, ao meu amadurecimento emocional, mas eu não deixo de pensar que Xangô abriu as portas para que me se sentisse livre para fazer minhas novas escolhas.

Eu poderia passar horas, dias, falando das benesses de Xangô e dos demais Orixás em minha vida, porque é realmente uma lista interminável. Mas também há desafios. Pelos olhos do Rei eu enxerguei as injustiças, as traições, as mentiras, as máscaras. Muitas decepções com pessoas queridas e amadas. Xangô não me causou o sofrimento; ele apenas abriu meus olhos mais cedo, porque essas decepções viriam, em algum tempo. Com algumas dessas pessoas eu pude reescrever a forma de me relacionar e reconstruir relações mais verdadeiras. Outras, infelizmente, morreram em vida para mim com a queda de suas máscaras. O mais importante nisso tudo é que Xangô estava comigo, ajudando-me a suportar esses dissabores, e pude ser mais forte para suportar as dores de certos rompimentos. Assim como a justiça, o machado de meu pai tem duas faces e minhas imperfeições e deslizes também foram desvelados, para que eu tivesse, como tive, a chance de aprender e me redimir.

Sigo a vida de cabeça erguida, celebrando minhas vitórias, refletindo sobre perdas e descaminhos. Entre erros e acertos, tenho vivido, olhando a vida através das lentes mágicas do Candomblé, desejando sempre clareza e discernimento. Eu que já releguei minha fé no passado, mantenho hoje uma fé inabalável nos Orixás. Nada que aconteça tirará de mim a confiança neles, aconteça o que acontecer.

Enquanto escrevia, começava a reclamar sobre o “material humano” dentro do Candomblé e quase escorreguei reclamando da perversidade das pessoas dentro da religião e no mundo. Apaguei tudo, porque refleti e concluí que não podemos generalizar a humanidade pela virulência de algumas pessoas. A maldade está no coração e na mente suja delas e, como um feitiço, corre-se o risco de materializar e alastrar essa maldade quando a generalizo para a humanidade, tornando-a ainda mais doente. E não precisamos disso, nem eu ou o mundo.

Precisamos de boas palavras, bons pensamentos. Precisamos tentar buscar a paz. Já faz algum tempo que tenho deixado de seguir pessoas em redes sociais cujos pensamentos, comentários e venenos não contribuem em nada para o meu bem viver. Deixar de seguir é a ferramenta diplomática para deixarmos de lado as ideias tóxicas de pessoas que não podemos excluir de nossas vidas num dado momento. Infelizmente, somos contaminados com a ideia da fofoca, sob as vestes da lealdade. Eu nasci e cresci num meio familiar de muita fofoca e aprendi a gostar dela. Mas Xangô tem me ensinado que a fofoca atrai energia ruim para nossas vidas e age como o tal feitiço que falei anteriormente. Quando espalhamos a fofoca, espelhamos desgraça.

Todos os dias eu me esforço para deixar de lado esse material contaminado da fofoca. Nem sempre sou vitorioso, sou muitas vezes derrotado por mim mesmo, mas sigo tentando. Ao fazermos isso, no Candomblé ou fora dele, acabamos nos deparando com um vazio, uma sensação de não pertencimento, porque a energia da fofoca que atrela as pessoas são nós disfarçados de laços, que vão pouco a pouco sufocando as boas vibrações. 
Quem me conhece, sabe como eu penso. Quem conhece verdadeiramente meu coração, é capaz de compreender minhas atitudes. Quem sabe da minha história, quem conhece o “mar de fogo” que atravessei para chegar até aqui, livre e são, senhor das minhas escolhas, pode ser capaz, se desejar, de compreender os meus passos. Aos 44 anos de vida, caio cada vez menos na fábula da expectativa. Apenas sigo em frente, com o amparo dos Orixás e com clareza na mente. Xangô ratificou em mim o desejo de ser livre e independente. E é a ele, ao seu fogo permanente que aquece a minha jornada, que dedico esse texto.

Te amo, Pai Xangô.  


Monday, December 18, 2017

EXTRAORDINÁRIO






Nesse último domingo assisti o filme “Extraordinário” (Wonder ,2017) no cinema. Confesso que nem tinha ouvido falar dele, de tão ocupado que andava. Só soube de sua existência ontem mesmo, quando meu marido pediu que eu pesquisasse sobre o que tratava o filme. Vi o trailler e encarei-o como daqueles “bonitinhos” e resolvemos assistir. O filme é lindo. Mais do que lindo; ele é capaz de fazer brotar emoções e lágrimas. Eu chorei muito durante o filme, mas vi outras pessoas chorando também, então não estava tão fora da curva de “emocionabilidade”. O mais interessante é que, embora o menino Auggie seja o principal personagem da trama, o filme não é só sobre ele. É um filme sobre pessoas. Pessoas todas envolvidas na trama com seus diferentes pontos de vista e com suas dores.

É claro que, enquanto assistia e chorava, eu conseguia refletir sobre cada um dos pontos que me faziam despertar tanta emoção. Embora eu não tenha nenhuma deformação física, eu me identifiquei com Auggie sofrendo bullying por ser “diferente”, leia-se gordo, na minha infância. Claro, hoje eu continuo gordo, isso não me afeta mais, mas me afetou muito e por muito tempo. Sei  que eu teria sofrido menos agressões e torturas se não fosse um gordo tão frágil e inseguro, cheio de medos  e desamparos . Lembro do pavor de passar no corredor polonês no recreio ou na entrada da escola; lembro do menino que tirava sarro do meu cabelão armado, o que me fez odiar tanto aquele cabelo; lembro desse mesmo menino chutando as minhas costas sem nenhum motivo, ou arremessando a mochila de longe, para acertar minha cabeça. Lembro bem que eu sentia medo e jamais conseguia responder ou reclamar. Tantas outras histórias que poderia contar aqui sobre como a escola era um lugar de terror para mim.

Ah, professores também fazem bullying. Lembro especificamente de três delas: Líria, do Colégio SAA, da primeira série, que deu um berro, com os olhos esbugalhados de ódio porque meu brinquedo havia quebrado e um colega cortou o dedo nele. Ela gritava e destilava um descontrole emocional que me causou vários pesadelos.  A segunda, que não lembro o nome, foi na quarta série do Colégio Quarup: fazia questão de, na frente de todos, fazer perguntas que expunham meus medos e fragilidades e sempre terminava com comentários jocosos que faziam a classe toda rir de mim. A terceira, no Colégio SAA novamente, era Regina, uma professora de Ciências. Uma torturadora, que decidia quando um aluno poderia ou não ir ao banheiro e me recordo que caguei nas calças uma vez porque ela resolveu não deixar que eu fosse no banheiro naquele momento.  Dessa eu me vinguei.  Numa atividade cultural da escola, fiz um cartaz com um cabelo de vassoura desfiada imitando o cabelo espigado dela, a cara dela com uma máscara de papel higiênico, aquele nariz enorme com uma verruga na ponta e aquela cara amarela de anemia. Não precisou nenhuma informação: escrevi abaixo daquela cara vil a frase “Você me conhece?”, igual ao programa do Bozo. A professora da atividade e toda a classe caíram na gargalhada e ela, a Regina do Mal, me olhava com ódio depois disso, mas nada pode fazer.

Via, a irmã de Auggie, tocou minha alma por outros motivos. A sua solidão naquela família, a falta da avó que havia falecido e era sua melhor amiga e o desejo de aniversário,  apagando as velas de 4 anos, pedindo um irmão. Inevitável eu lembrar que, por volta dessa idade, talvez um pouco mais velho, eu pedia a Deus que me desse uma irmãzinha. E que quando ela veio, era como se tivesse chegado um anjo para alegrar a minha vida e me proteger e ser uma razão para pensar que a vida não era tão horrível. Que era possível sobreviver sem a presença da minha avó Izolina, que havia me deixado,  vítima de um câncer. Que era possível suportar a sensação de abandono do meu avô Armando, que havia saído de casa para morar com sua outra família, limitando-se a visitas mensais. 

Com essa esperança, era mais fácil suportar aquela violência toda na escola, porque eu voltava para casa, para ver a minha irmã, que me trazia tanta luz. Antes mesmo do filme eu já andava reflexivo, porque ainda não estou recuperado das feridas recentes que esse assunto me trouxe. Nesse aspecto, eu ainda estou dolorido, ferido, sem condições de caminhar.

Via,  que num momento do filme se diz “filha única” sem ser, explicita a dor da sua alma por sentir-se só. Já faz um tempo que me chamo “órfão de pais vivos”, porque, por um lado, tive um pai ausente na maioria dos momentos da minha vida e, quando estava presente, era sempre de forma violenta, agressiva, desagradável. Aprendi a desejar a ausência dele. Aprendi a agradecer quando ele não estava em casa, quando ele não viajava conosco, quando ele passava as madrugadas fora. Nojo, repulsa e medo. Nada mais. Por outro lado, fui me  orfanizando da minha mãe ao longo do tempo. Demorei um tempo para perceber e aceitar que sua presença era invasiva e tóxica, atrasada e preconceituosa. Hoje, desejo sua presença cada vez menos, sem sentir falta ou culpa por estar longe. Fique ela, com sua igreja, seu Deus vingador , seus fiéis irmãos hipócritas amaldiçoando, em nome de Jesus, pessoas que não caibam em suas caixas comportamentais.

Mais recentemente, eu me orfanizei de meus irmãos. Eu tenho que confessar que foi uma escolha. Doída. Sofrida. Mas uma escolha como consequência de abandonos e decepções. Às vezes eu me pego sentindo saudades. Outras vezes me apanho sentindo dores. Dores dos machucados de relações poluídas, dores de decepções vividas, dores de expectativas frustradas. Esse filme trouxe isso  mais à tona, mas há algumas semanas já estava sentindo essas coisas. Sobretudo porque, já experimentava, antes mesmo de me recolher para minhas obrigações no Candomblé, as invasões desses sentimentos. Porque esse período de isolamento é propício, é um convite a essas reflexões sobre nossa vida. 

Durante esse recolhimento, Oxum e Iemanjá estiveram mais presentes,  me colocando frente aos  meus  espelhos d´alma e então foi impossível não espelhar tristezas e mágoas guardadas. Eu pude refletir sobre meus excessos nessas relações: meu excesso de expectativas, meu excesso de generosidade, querendo dar o que ninguém nem pediu, minha frustração por eles não serem o que desejava para eles. Um irmão mais velho, que recebeu precocemente atribuições de pai e cuidador, querendo o tempo todo dizer o que achava melhor que eles fizessem, sem enxergar que os caminhos deles também foram escolhas deles. Por outro lado, pude refletir sobre o quando esperava deles que eles fossem por mim como eu era por eles; que eles estivessem nas minhas datas especiais como eu estava nas deles e que, na verdade, eles nunca quiseram estar. Embora eu tenha impressões sobre os motivos pelos quais eles nunca estiveram, não seria justo eu julgar os seus não-quereres. É suficiente perceber que eles não estiveram e que eu me magooei com isso.

Eu não sei dizer se esse distanciamento será para sempre. Eu saberei  voltar atrás se perceber que sou capaz de conviver com menos dores, ainda que com cicatrizes. Por hora, não sou capaz de olhar para essas situações e fingir que não estou machucado. Seria um não eu, fingindo sentir  ou fingindo não sentir. Eu não preciso mais disso em minha vida.

Recentemente, uma irmã por parte de pai, agora adolescente, me procurou nas redes sociais e quis falar comigo, porque queria me conhecer. Uma menina linda e inteligente, com traços familiares. Eu sabia – ou desejava – que isso aconteceria um dia. E aconteceu. Mesmo sabendo quem era, esperei que ela me chamasse, se apresentasse  e dissesse o que queria: me conhecer, se aproximar, simplesmente por sermos irmãos. Eu ouvi e educadamente respondi a ela, que, embora ela não tivesse culpa disso, eu respeitava o desejo dela, mas não tinha nenhuma vontade de aprofundar alguma relação com ela, porque ela representaria uma espécie de ponte para um triste passado que eu não desejava reviver, ou convivência, contato e notícias desse pai que passou a vinda inteira me rejeitando, violentando e massacrando. Não desejo guerras, mas também não estou em idade de fingir cordialidades  com demônios. Eu poderia tê-la bloqueado de pronto, mas eu fiz questão de dizer isso a ela, para deixar claro que ele, seu nome que retirei do meu, suas riquezas, não me pertencem, de nada me servem.

Mas o filme não trouxe só agruras. Eu também chorei de felicidade. Chorei ao pensar nas pessoas que tive em minha vida, amigos e familiares, que deram e me dão amor e carinho e que amam do jeito que eu sou, pelo que eu sou, como eu sou. Pensei nas minhas queridas tias Lilian e Wilma, que tanto me ajudaram, me ampararam e me amaram, sem cobranças, sem chantagens, sem repressões. Passou um filme de todos os meus amigos queridos de toda uma vida, que fizeram o mesmo: simplesmente me amaram. E pensei, também com emoção, nesse meu companheiro, meu marido, que tem estado sempre ao meu lado, me apoiando, me amando, dando broncas, chamando a atenção para minhas falhas. Um presente que pedi a Deus.

Extraordinário. O nome do filme em português. Combina, porque ele diz, no começo do filme, que, embora tente parecer um garoto comum (“ordinary”) , ele sabe que é diferente. Em algum momento ele diz, porque vai se fazendo, um garoto “extra- ordinário”, não apenas no sentido especial que vai lhe sendo atribuído, mas de poder se tornar, de fato, extremamente comum, uma criança no meio de tantas outras. Em inglês, chamaram Wonder. Wonder é muito mais que extraordinário. Wonder significa maravilha, ou como diz o dicionário: “um sentimento de supresa misturado com admiração, causado por algo bonito, inesperado, não-familiar ou inexplicável”. 


Viver é extraordinário. A vida é Wonder. 

Sunday, May 21, 2017

13 RAZÕES.

Eu ando sempre meio atrasado em relação aos modismos e ao consumo em geral. Isso inclui meu atraso em assistir filmes e séries novos. Isso inclui a nova série 13 Reasons Why, disponível no Netflix. Demorei para ouvir falar e estava pouco interessado em assistir até que, numa reunião de amigos, os comentários divergentes aguçaram o meu interesse. 

"Ah, é sobre bullying" - disse alguém.

"Eu assisti, mas não vi nada demais, nada tão importante assim para ela se matar. Eu passei por tudo isso na minha época e não me matei" - disse um outro.

"Ela era muito desequilibrada, na verdade" - retrucou mais outro.

"Esse mundo anda muito chato. Não se pode falar mais nada." - falou mais um.

No grupo, duas pessoas combinavam um evento para discutir a série com os alunos de uma escola, e diziam que seria “legal” usar o material para discutir sobre bullying e suicídio, principalmente com o advento da tal “baleia azul”. 

Ouvi algumas pessoas preocupadas com o poder da série de induzir o suicídio e em pessoas propensas a isto. Rapidamente me lembrei que li e assisti, na infância, “O meu pé de laranja-lima”, vi o assassinato da Odete Roitman, o suicídio da garota dos frangos em “Garota interrompida”, a execução por enforcamento em “Dançando no Escuro”, a morte de Virginia Wolf em “Mrs. Dalloway” e tantos outros. Há uma lista enorme de filmes, séries e novelas revelando o tema. Pensei sobre a época em que não existia televisão ou nas pessoas que vivem na roça, afastadas das influências da mídia e que, ainda assim, suicídios já ocorriam. 

E então eu decidi assistir. E fiquei realmente impressionado. E logo nos primeiros capítulos, decidi que gostaria de escrever as minhas impressões sobre a série, não apenas desse lugar “privilegiado” como psiquiatra e psicoterapeuta, mas como alguém que sofreu muito bullying (na época em que não se falava sobre isso), muita violência na escola e em casa e, por conta de tanta fragilidade, quase teve o mesmo trágico fim de Hannah. 


Em 13 episódios, Hannah revela as 13 razões que a levaram a cometer o suicídio. E veja, ela não faz apenas culpar os outros, como o início da série dá a impressão. Ela também reflete sobre seus erros, seus medos, seus fracassos, sua solidão num mundo mental perturbador e suas tentativas frustradas em conseguir se livrar da dor. 

A partir de cada revelação, a série também vai nos apresentando situações tão comuns e tão graves no ambiente escolar e que, sem dúvida, podem levar uma pessoa que SEJA ou ESTEJA mais frágil a desejar acabar com a própria vida, mas também que podem se FRAGILIZAR e desencadear o mesmo processo. Assédio moral e sexual, abusos físicos, humilhações, estupro, exposição indevida de intimidades, preconceito, racismo e silêncio. Sim, o silêncio dos colegas, observando, de longe, a violência sofrida por uns e outros; o silêncio das escolas, dos educadores, que deveriam investigar e proteger tais abusos; o distanciamento dos pais a despeito da vida e do sofrimento dos seus filhos. A série é um fiel retrato de situações que são vividas diariamente, por diversas pessoas, não importa o tipo de escola ou a classe social. 

Hannah “presenteia" seus colegas com a consciência sobre suas atitudes e suas consequências, deixando com eles a culpa, a impotência, a reflexão sobre seus atos. Nos primeiros episódios, cheguei a sentir raiva dela, julgando-a “sacana” por jogar para cima deles a culpa pela seu suicídio, como uma forma de vingança. Na verdade, é bem mais fácil enxergar a coisa desse modo. Dizer que ela era louca, desequilibrada e sacana, por querer se vingar e torturar as pessoas, mesmo depois de morta. 

Mas, se olharmos mais fundo, veremos que há uma importante mensagem nas fitas gravadas por Hannah. Quando ela descreve cada uma das atitudes das pessoas envolvidas, ela nos mostra, como disse o jovem Clay, o que estamos fazendo com as pessoas e como deveríamos tentar agir de uma forma melhor. 

Além de Hannah, há, em minha opinião, dois importantes personagens que guardam em si uma chave simbólica na trama: Clay e Tony. Clay, que em inglês significa “barro”, é quem dá o amálgama a toda a trama. É ele, durante todos os episódios, quem ouve as fitas deixadas por Hannah e vai nos mostrando, vivenciando um turbilhão de sentimentos e provocando reações, ações, que tentam, de alguma forma, reparar os erros cometidos por aquelas pessoas. Tony, encarregado de distribuir as fitas e guardar os segredos de Hannah, com seu carro vermelho, seu visual rebelde e afeito às coisas do passado, é o mensageiro, o “trickster”, o “Hermes” que tem a função de trazer a verdade e está sempre presente para facilitar o trânsito entre os vivos e a morta. 


Minha angústia crescia conforme avançava a série. Crescia porque ficava apreensivo em saber o motivo pelo qual Clay, o menino bonzinho, estava entre as 13 razões e também porque, embora já soubéssemos o “final”, esse passo a passo que vai culminar com essa desistência, esse vazio que Hannah descreve, me fez refletir sobre o que já senti no passado e sobre quantas pessoas passam por isso todos os dias. Muitas conseguem obter apoio e sair desse buraco, mas muitas - e nem sabemos quantas - não saíram e não sairão. 

É por isso que a palavra chave é empatia. Empatia é uma palavra muito falada e pouco sentida. Colocar-se no lugar do outro. Será que conseguimos? E se conseguíssemos? Será que queremos? Empatia não brota em árvores. É claro que há pessoas que têm uma capacidade mais espontânea de empatia. Mas só algumas. Na grande maioria dos casos, empatia exige esforço, trabalho, deslocamento da nossa posição para a do outro, e não raras vezes falhamos. Em muitos casos, por mais que tentemos, não conseguiremos estar ali e precisamos reconhecer isso, o que já é bastante válido. 

Mesmo que eu já tenha passado pelo mesmo sofrimento, eu não sou Hannah. A dor, o sofrimento, o vazio de cada um é de cada um apenas. E temos a obrigação de saber que não estamos aptos a julgar os sentimentos do outro. Então, se não somos capazes de compreender, o máximo de atitude empática que poderemos ter é despir-se da beca de juiz e aceitar aquele sofrimento como possível. Sendo legítimo, vindo da alma, já pode ajudar. 

Também não devemos julgar o tipo de ajuda à qual a pessoa recorre. Profissionais da saúde tendem a acreditar que os remédios e a terapia são os únicos recursos disponíveis. São importantes recursos, obviamente, mas não os únicos. Muitas pessoas que passaram por essa situação conseguiram apoio, recuperação e cura através de muitos outros meios e muitas pessoas que procuraram remédios e terapia sucumbiram. 

Parece que não julgar é o que há de mais importante. E eu não falo de um lugar todo especial, de nenhum altar de superioridade, me colocando como uma pessoa que não julga nunca, que aceita e empatiza sempre. Eu falo do lugar onde me encontro agora: um cara que já passou por coisas difíceis e que quase sucumbiu e encontrou apoio em alguns amigos, espíritos, terapias, remédios e que hoje é capaz de amar a vida e desejar continuar vivendo. E mesmo assim, fui convidado por Hannah - e aceitei o convite - a julgar ainda menos e empatizar ainda mais.