Le Cul du Tabou

"Tudo começou há algum tempo atrás na Ilha do Sol..." Era uma vez dois grandes amigos que resolveram, em pleno sol de Ipanema, criar um livro de contos. Ocorre que a cerveja era tanta que o nome do livro se esvaiu...Mas, graças à Nossa Senhora dos Bons Feriados, os amigos resolveram retomar a empreitada... Ainda desmemoriados, decidiram criar esse blog, com o objetivo de discorrer sobre temas polêmicos, histórias engraçadas e outras curiosidades...

Sunday, May 21, 2017

13 RAZÕES.

Eu ando sempre meio atrasado em relação aos modismos e ao consumo em geral. Isso inclui meu atraso em assistir filmes e séries novos. Isso inclui a nova série 13 Reasons Why, disponível no Netflix. Demorei para ouvir falar e estava pouco interessado em assistir até que, numa reunião de amigos, os comentários divergentes aguçaram o meu interesse. 

"Ah, é sobre bullying" - disse alguém.

"Eu assisti, mas não vi nada demais, nada tão importante assim para ela se matar. Eu passei por tudo isso na minha época e não me matei" - disse um outro.

"Ela era muito desequilibrada, na verdade" - retrucou mais outro.

"Esse mundo anda muito chato. Não se pode falar mais nada." - falou mais um.

No grupo, duas pessoas combinavam um evento para discutir a série com os alunos de uma escola, e diziam que seria “legal” usar o material para discutir sobre bullying e suicídio, principalmente com o advento da tal “baleia azul”. 

Ouvi algumas pessoas preocupadas com o poder da série de induzir o suicídio e em pessoas propensas a isto. Rapidamente me lembrei que li e assisti, na infância, “O meu pé de laranja-lima”, vi o assassinato da Odete Roitman, o suicídio da garota dos frangos em “Garota interrompida”, a execução por enforcamento em “Dançando no Escuro”, a morte de Virginia Wolf em “Mrs. Dalloway” e tantos outros. Há uma lista enorme de filmes, séries e novelas revelando o tema. Pensei sobre a época em que não existia televisão ou nas pessoas que vivem na roça, afastadas das influências da mídia e que, ainda assim, suicídios já ocorriam. 

E então eu decidi assistir. E fiquei realmente impressionado. E logo nos primeiros capítulos, decidi que gostaria de escrever as minhas impressões sobre a série, não apenas desse lugar “privilegiado” como psiquiatra e psicoterapeuta, mas como alguém que sofreu muito bullying (na época em que não se falava sobre isso), muita violência na escola e em casa e, por conta de tanta fragilidade, quase teve o mesmo trágico fim de Hannah. 


Em 13 episódios, Hannah revela as 13 razões que a levaram a cometer o suicídio. E veja, ela não faz apenas culpar os outros, como o início da série dá a impressão. Ela também reflete sobre seus erros, seus medos, seus fracassos, sua solidão num mundo mental perturbador e suas tentativas frustradas em conseguir se livrar da dor. 

A partir de cada revelação, a série também vai nos apresentando situações tão comuns e tão graves no ambiente escolar e que, sem dúvida, podem levar uma pessoa que SEJA ou ESTEJA mais frágil a desejar acabar com a própria vida, mas também que podem se FRAGILIZAR e desencadear o mesmo processo. Assédio moral e sexual, abusos físicos, humilhações, estupro, exposição indevida de intimidades, preconceito, racismo e silêncio. Sim, o silêncio dos colegas, observando, de longe, a violência sofrida por uns e outros; o silêncio das escolas, dos educadores, que deveriam investigar e proteger tais abusos; o distanciamento dos pais a despeito da vida e do sofrimento dos seus filhos. A série é um fiel retrato de situações que são vividas diariamente, por diversas pessoas, não importa o tipo de escola ou a classe social. 

Hannah “presenteia" seus colegas com a consciência sobre suas atitudes e suas consequências, deixando com eles a culpa, a impotência, a reflexão sobre seus atos. Nos primeiros episódios, cheguei a sentir raiva dela, julgando-a “sacana” por jogar para cima deles a culpa pela seu suicídio, como uma forma de vingança. Na verdade, é bem mais fácil enxergar a coisa desse modo. Dizer que ela era louca, desequilibrada e sacana, por querer se vingar e torturar as pessoas, mesmo depois de morta. 

Mas, se olharmos mais fundo, veremos que há uma importante mensagem nas fitas gravadas por Hannah. Quando ela descreve cada uma das atitudes das pessoas envolvidas, ela nos mostra, como disse o jovem Clay, o que estamos fazendo com as pessoas e como deveríamos tentar agir de uma forma melhor. 

Além de Hannah, há, em minha opinião, dois importantes personagens que guardam em si uma chave simbólica na trama: Clay e Tony. Clay, que em inglês significa “barro”, é quem dá o amálgama a toda a trama. É ele, durante todos os episódios, quem ouve as fitas deixadas por Hannah e vai nos mostrando, vivenciando um turbilhão de sentimentos e provocando reações, ações, que tentam, de alguma forma, reparar os erros cometidos por aquelas pessoas. Tony, encarregado de distribuir as fitas e guardar os segredos de Hannah, com seu carro vermelho, seu visual rebelde e afeito às coisas do passado, é o mensageiro, o “trickster”, o “Hermes” que tem a função de trazer a verdade e está sempre presente para facilitar o trânsito entre os vivos e a morta. 


Minha angústia crescia conforme avançava a série. Crescia porque ficava apreensivo em saber o motivo pelo qual Clay, o menino bonzinho, estava entre as 13 razões e também porque, embora já soubéssemos o “final”, esse passo a passo que vai culminar com essa desistência, esse vazio que Hannah descreve, me fez refletir sobre o que já senti no passado e sobre quantas pessoas passam por isso todos os dias. Muitas conseguem obter apoio e sair desse buraco, mas muitas - e nem sabemos quantas - não saíram e não sairão. 

É por isso que a palavra chave é empatia. Empatia é uma palavra muito falada e pouco sentida. Colocar-se no lugar do outro. Será que conseguimos? E se conseguíssemos? Será que queremos? Empatia não brota em árvores. É claro que há pessoas que têm uma capacidade mais espontânea de empatia. Mas só algumas. Na grande maioria dos casos, empatia exige esforço, trabalho, deslocamento da nossa posição para a do outro, e não raras vezes falhamos. Em muitos casos, por mais que tentemos, não conseguiremos estar ali e precisamos reconhecer isso, o que já é bastante válido. 

Mesmo que eu já tenha passado pelo mesmo sofrimento, eu não sou Hannah. A dor, o sofrimento, o vazio de cada um é de cada um apenas. E temos a obrigação de saber que não estamos aptos a julgar os sentimentos do outro. Então, se não somos capazes de compreender, o máximo de atitude empática que poderemos ter é despir-se da beca de juiz e aceitar aquele sofrimento como possível. Sendo legítimo, vindo da alma, já pode ajudar. 

Também não devemos julgar o tipo de ajuda à qual a pessoa recorre. Profissionais da saúde tendem a acreditar que os remédios e a terapia são os únicos recursos disponíveis. São importantes recursos, obviamente, mas não os únicos. Muitas pessoas que passaram por essa situação conseguiram apoio, recuperação e cura através de muitos outros meios e muitas pessoas que procuraram remédios e terapia sucumbiram. 

Parece que não julgar é o que há de mais importante. E eu não falo de um lugar todo especial, de nenhum altar de superioridade, me colocando como uma pessoa que não julga nunca, que aceita e empatiza sempre. Eu falo do lugar onde me encontro agora: um cara que já passou por coisas difíceis e que quase sucumbiu e encontrou apoio em alguns amigos, espíritos, terapias, remédios e que hoje é capaz de amar a vida e desejar continuar vivendo. E mesmo assim, fui convidado por Hannah - e aceitei o convite - a julgar ainda menos e empatizar ainda mais. 



Friday, May 05, 2017

OS MAUS FANTASMAS À CASA TORNAM


Andando pela rua hoje, vi um casal discutindo. Bem ali, no meio da rua, para todo mundo ver. Na verdade eles não estavam discutindo. Ele, o homem, berrava com ela, xingava, ofendia, humilhava, e ela, a mulher, se encolhia, assustada e envergonhada. Eu fiquei um tempo parado, estático, observando aquela discussão e viajando no tempo, precisamente naquele tempo em essas coisas ocorriam na minha casa, com meus pais; comigo, meus irmãos, nossos vizinhos e os passantes de testemunha. 

Saí daquele lugar após alguns minutos, mas despertei os fantasmas que estavam guardados naquela caixinha empoeirada da memória. Lembrei das frases do meu pai, agressivas, ofensivas, pejorativas contra minha mãe. Lembrei do comportamento beligerante e provocativo dela, sempre dando continuidade às discussões, à exaustão, até culminar com agressões físicas. Ouvi novamente o barulho da porta deles sendo trancada, a chave antiga gemendo na fechadura, anunciando mais uma noite de intensas discussões, ofensas e agressões. Recordei quando inventava estar com dor de estômago, batia naquela porta pedindo para que algum deles se levantasse para me dar remédio, com o único intuito de parar aquela (nova) briga. Às vezes funcionava, às vezes eles continuavam. Revisitei os motivos primevos da minha insônia, que carrego até os dias de hoje: brigas, barulho, agressões, violência. Senti na pele e no corpo aquele medo que me consumia noite adentro. 

Acabei desenvolvendo alguns recursos para lidar com essa merda toda. Os fones de ouvido escutando a Musical FM me ajudavam a fugir daquela realidade, tocando músicas antigas que me faziam adormecer. Enquanto não adormecia, viajava num tempo que não era meu, dos bailes chiques dos anos cinquenta e sessenta, dos tempos da brilhantina. Alucinava ter vivido naquela época, alucinava que faria uma festa “anos sessenta” e às vezes ficava horas fazendo a lista de convidados e de afazeres. Guardava sempre essa lista e, quando me desentendia com alguém ou alguém desaparecia da minha vida, riscava da festa. Também acrescentava novos amigos que iam aparecendo. Algumas vezes escrevia poesias. Duras, suadas, sofridas, fechadas. Eram a minha catarse para aquele mal todo. 

Tem gente que passa por tudo isso e acaba reproduzindo esse padrão em sua própria vida. Eu me tornei medroso. Tenho medo da violência, evito brigas, fujo delas. A tal ponto que às vezes me sufoco em mim mesmo. Com o passar dos anos, aprendi a brigar por algumas coisas justas, mas na maioria das vezes tendo a recolher ou encolher. Mesmo com meus medos, não me considero mal sucedido: sou capaz de expressar minhas opiniões e delimitar meus espaços. Não tenho mais os pesadelos que me assombraram por anos com a figura diabólica dele. 

Mas hoje, particularmente hoje, essa imagem me feriu e acordou essas lembranças. Fantasmas e feridas de uma vida. Se não posso impedir que eles me visitem vez ou outra, pelo menos que sirvam para me mostrar o que não desejo. Para reforçar minha escolha de viver em paz.


Thursday, February 16, 2017

SATURNINAMENTE

Saturninamente.

Faz um tempo que não consigo escrever textos para o blog. Muitos amigos e leitores têm me pedido que eu volte a escrever. Cheguei a me debruçar sobre o computador, ensaiei uns "rabiscos" eletrônicos e não saiu nada.

Lembrei de uma entrevista da Adélia Prado, que anunciava um novo livro depois de uns longos anos sem escrever, oito, se não me falha a memória. Não me lembro as exatas palavras dela. Mas ela dizia que havia sofrido muita pressão de convíveres, de editoras e que poderia até ter escrito alguma "qualquer coisa" para satisfazer o afã dos outros, mas estaria descompromissada consigo mesma.

Eu gostaria de conseguir escrever mais, mas a minha inspiração me abandonou por algum tempo. Ou ela não me abandonou e estava apenas guardada. Ou essa brasa que mantém acesa a minha vida e que dá fogo para minha inspiração está sendo consumida para aquecer outras tarefas necessárias. Ou jogaram água gelada sobre a brasa.

Talvez tenha sido issso. Água gelada sobre a brasa. Meu amigo diz que é o tal Saturno que ronda por um ano solar toda a minha existência! Tem noção do que é ter um planeta fazendo sombra sobre sua vida por um ano?

Quando jogaram búzios pela primeira vez para mim, eu descobri que eu era filho de Xangô. Dona Jamile, a mãe de santo, sempre finalizava o jogo com uma mensagem do astral e, nesse primeiro encontro, deu-me a mensagem de Xangô para que eu carregasse pra sempre em meu coração:

"Tens medo da chuva e das tempestades, dos temporais? A chuva serve para lavar, limpar, levar embora o que não presta mais; a chuva rega as plantas, irriga e afofa o solo, para que venha uma nova colheita, para que a prosperidade chegue."

Daí eu me lembrei do primeiro dia em que participei de uma reza que ela fazia para Xangô às quartas-feiras. Voltando exausto da faculdade, sem dinheiro e com fome, peguei um ônibus errado para ir para a casa dela e desci num lugar desconhecido. Não me lembrava do nome da rua e não tinha como falar com alguém para pedir o endereço.

Caminhando na escuridão da noite, por ruas estranhas, chorava enquanto entoava a única frase que conseguia lembrar do cantiga de Xangô que havia escutado no dia da gira de Umbanda:

"Se um dia eu perder a fé no meu senhor, que role essa pedreira sobre mim"

E consegui chegar, atrasado, mas ainda em tempo de pedir ajuda para esse meu Pai Xangô que acabava de (re-)conhecer.

Eu fiquei pensando o que ela me diria sobre a sombra de Saturno em meu ano. Quase escrevi "se ela estivesse viva", mas me lembrei que ela está viva, em algum lugar. E agradeço por ter tido a oportunidade de encontrar essa pessoa que me amparou num momento de extrema dificuldade.

Pensar nisso me confortou.

Porque, se de um lado a sombra de Saturno me tira energia, me acomoda e retira de mim aquela vitalidade toda, ele faz isso comigo para que eu me sente e espere. Espere e pense, reflita. E é o que mais tenho feito ultimamente: pensar.

Pensar nas pessoas que se afastaram; pensar na dor que senti por cada traição, decepção e desonra que passei nesse período; refletir sobre os excessos cometidos, sobretudo o excesso de confiança e de expectativa; refletir como fui infantil por acreditar e confiar cegamente em algumas pessoas.

Pensar que, em pouquíssimo tempo, minha vida mudou completamente. Fui iniciado no Candomblé no final de 2014, terminei um casamento de 12 anos no ano seguinte, me apaixonei e me casei pouco tempo depois e, com essas mudanças, mudaram-se todos os meus projetos de vida. Tudo ou quase tudo que era projeto de vida, de repente ficou diferente. Porque hoje, o que eu desejo para a minha vida, está muito mais em consonância com a minha alma.

Quem eu sou hoje está,ainda não totalmente, muito mais próximo do que eu desejo ser enquanto pessoa, enquanto homem.

A Sombra de Saturno me faz avistar, de dentro para fora desse lugar cavernoso, escondido e secreto, a imagem projetada de um porvir mais consonante com os desejos da minha alma.

Embora eu esteja me sentindo hoje cansado e mentalmente esgotado, essa convalescência me faz lembrar que esse vislumbre dos dias melhores sempre me manteve vivo e esperançoso, mesmo nos piores (e passados) dias da minha existência. E, muito mais importante do que ser apenas uma fagulha de esperançosa ilusão, eu consegui chegar aos lugares que eu desejei estar.

Sozinho ou amparado por mãos visíveis ou invisíveis, eu cheguei "lá". Essa "lá" que é um "aqui", onde me encontro hoje, mas também é um "lá" que é "lá" mesmo, um lugar especial no qual ainda não aportei, mas sei que chegarei.

Então eu sigo viagem. Eliminando bagagens desnecessárias para me tornar mais leve. Deixando para trás pessoas, coisas, mágoas, tristezas. Como no filme "Viagem para Darjeeling", só estamos mesmo prontos para seguir quando somos capazes de deixar para trás as coisas que não importam mais.

Merci, Saturne.

Monday, August 22, 2016

AGOSTO, MÊS DE DESGOSTO?


Desde pequeno, ouvia falar sobre as intempéries do mês de agosto, com suas máximas “agosto mês de desgosto” e “mês de cachorro louco”. Como toda crendice, demorei para entender as origens dessas ressalvas, até que meu encontro com o Candomblé pôde, por força dos acontecimentos, dar conta de explicar, na pele, o significado desse mês tão “diferente”. Dos anos passados da minha vida, não saberei recordar se, de fato, tive ou não tive agostos turbulentos; mas há alguns anos venho notando verdade na agrura no famigerado agosto. 


Agosto é o mês em que se reverencia a divindades que chamamos de dono da terra, ou dono do chão, ou Obaluaê, também chamado de Omolu, Xapanã, Zapatá, entre os nagôs ou Nsumbo, Kavungo, na nação Angola, entre outros tantos nomes. Divindade guardiã da saúde e da doença, zeladora dos cemitérios, velho, alquebrado, doente, temido pelo extremo poder de dar e tirar do homem o seu bem mais precioso: a saúde. 

É no mês de agosto que o reverenciamos porque foi sincretizado com São Lázaro e São Roque, os santos católicos padroeiros dos doentes, dos leprosos e pestilentos. Isso porque, nos mitos que recontam suas origens, Obaluaê é o filho que nasce feio, cheio de pústulas e feridas da varíola, fazendo com que sua mãe Nanã o rejeite. Em alguns mitos, ele é encontrado e cuidado por Yemanjá, divindade das águas salgadas, como mãe adotiva, que cura suas feridas com o sal de suas águas e em outros por Yansan, divindade dos ventos, que o veste com as palhas para esconder seu corpo doente e oferece a ele a esteira para que se deite. 

Em minha opinião, um dos mitos mais bonitos dessa divindade é quando Iansan sopra sobre suas palhas, gerando uma enorme ventania sobre seu corpo, transformando suas feridas em pipocas, que estouram pelo ar, e ele se transforma num belo príncipe. Assim, a pipoca, chamada de deburú, doburú ou gugurú, é o alimento sagrado que o representa. A transformação do milho duro em pipoca com o calor do fogo é um simbolo de mudança, de evolução. 

Mesmo entre os adeptos do Candomblé, Obaluaê é muitas vezes um santo temido, mas pouco adorado - diria até rejeitado - por não portar o luxo de outras divindades, como Xangô e Oxum. É uma divindade simples, que se veste de palhas, tem a cara e o corpo escondidos. Já ouvi alguns “filhos” dessa divindade se dizerem decepcionados com essas características. 

Dizemos então que agosto é o mês que Obaluaê reina na terra, soberano. Não é exatamente um mês de desgosto, mas um mês de “expurgar as pragas”, exteriorizar as feridas, limpar o que está sujo, dentro e fora de nós. É um mês em que se deve respeitar o silêncio, o recolhimento, porque tudo o que for dito é visto e ouvido, e será cobrado. 

Se eu falasse dessa divindade ao meu último analista, ele me pediria, sabiamente, o que peço a vocês: fiquem com a imagem. Reflita sobre a imagem desse velho que guarda o poder e segredos sob suas palhas. Receba essa imagem no seu coração, a principal morada da alma. Eu o aceito, com sua simplicidade, sua sabedoria infinita, seus olhos que tudo vêem, seus ouvidos que tudo ouvem, e cuja boca permanece em silêncio, como mostra a sua dança ritual, o Opanijé. Eu recebo seu alimento, o banquete que os orixás lhe fazem em reverência ao seu poder e que o senhor da terra oferece a nós, pequeninos mortais. 


Atotô, meu velho. 

https://www.youtube.com/watch?v=vBZwbkRQlFk


Tuesday, March 22, 2016

DO OLHO OU DA REMELA?




“Fora Petista”

Hashtag: “Nojo de vermes”

(Espera que eu já explico.)

Ontem, voltando de viagem do final de semana, escutando música na estrada ao lado do meu namorado, feliz da vida, revirei os baús da memória, ajudado pela Apple Music e desatei a ouvir Fafá de Belém. Ouvi  a música da Tieta, aquela outra que ela canta com o Zezé, escutei lambada. Lembrei-me de um amigo paraense que é super- fã de sua conterrânea e pensei que ele está coberto de razão: ela é incrível.

Daí encontrei uma versão ao vivo no Youtube, na qual, ela, esplendorosa, veste cocar e ressalta as belezas de seu povo, que “aprende a dançar descalço” e “toma banho no igarapé”. Eu nunca tomei banho num igarapé, mas eu sei o quanto é delicioso dançar, loucamente, ainda mais descalço.

Não sem nenhuma maldade, porque, afinal de contas, sou de escorpião, resolvi postar a música “Vermelho” no Facebook e escrevi:

“Só pra lembrar que meu coração é vermelho! Uma ótima semana cheia de amor a tod@s!”

Eis que uma desconhecida, dessas que invadem a Timelime alheia, desatou a destilar seu ódio, dizendo que seu coração será sempre verde e amarelo, que tem nojo de vermes, e fora PT e blablablá.

Tá certo que o post é público e que eu não bloqueio comentários de estranhos. Mas qual é o direito que uma pessoa tem de invadir o post alheio com ofensas e revoltas? Tudo bem, a minha malaguetice implícita provou que não se pode falar mais de vermelho no Brasil, que automaticamente se fica associado ao Partido dos Trabalhadores, à CUT, ao MST.

Como ficarão agora os corações? E o Chambinho? Como ensinaremos as crianças? Como poderemos exemplificar o calor do amor e da paixão se o vermelho será cor proibida nesses tempos difíceis? Tô bege. Hoje mesmo soube de mães que foram agredidas por vestirem de vermelhos seus bebês.

E o fetiche, a luxúria? O que será dela sem o vermelho? Imagina a cena: a pessoa , trajando espartilho e cinta-liga de renda, salto agulha, batom e esmalte, tudo vermelho. Chega a outra pessoa e, ao invés de curtir aquele momento de êxtase, empurra a “companheira” e grita: “Fora Petralha! Ladrões! Bando de vermes!”

Cena drástica no pronto-socorro: você deixa cair um copo no chão e pisa no caco de vidro. Vai correndo para o São Luiz ou para o Samaritano, tem “convênio bom” e o médico, ao invés de suturar seu corte, grita: “Comunista de merda! Vai morrer no SUS! Tá sangrando vermelho! Vai pra Cuba!”

 Sim, há radicalismos por toda a parte. Somos conduzidos, incitados, manipulados à intolerância, como galos em rinha. Eu gosto do meu país, não tenho vergonha de ser brasileiro. Acho que o verde-e-amarelo da nossa bandeira é uma combinação e tanto, e me orgulho quando ela é reconhecida como um símbolo do meu país. Mas eu também gosto do vermelho, em seus vários matizes.

É claro que eu não posso e, na verdade, nem quero negar a minha tendência esquerdista. Mas jamais esquecerei meu desejo de liberdade e meu desejo de que as outras pessoas também sejam livres em atos e pensamentos, sem por isso perder o respeito pela opinião alheia. Sim, o vermelho, enquanto cor quente, ativa, intensa, me representa.


Como diz o ditado, “uns gostam do olho, outros da remela”. Devemos saber respeitar isso. E devemos saber que, na verdade, não sabemos, quem é olho, quem é remela. 

Tuesday, February 23, 2016

MAS EU CRESCI




Hoje eu li um texto num site (http://www.brasilpost.com.br/carol-patrocinio/resposta-fernanda-torres_b_9294562.html)  que comentava brilhantemente sobre o texto da Fernanda Torres numa coluna que me recuso a compartilhar, por fazer parte de um jornal que me recuso a ler e também porque o conteúdo é memoravelmente abjeto. Se quiser ler, procura que você acha.  

Apesar de brilhante, o texto é em formato “cartinha”, coisa que está na moda hoje em dia. Eu quase escrevi uma cartinha também, mas eu acabei achando delicado demais para o meu modo de dizer as verdades, ou as minhas verdades, as minhas opiniões. Mas a cartinha da Carol me fez refletir sobre como somos facilmente adestrados a acreditar e a concordar com as “verdades” da Fernandinha, está atriz tão talentosa, tão inteligente e que, por ser tudo isso, só pode escrever verdades e cria uma barreira que nos impede de achá-la uma pessoa escrota, machista, preconceituosa e racista.

Eu parei para refletir no quanto a minha criação numa família preconceituosa (e inclua na palavra todos os possíveis preconceitos, como racismo, misoginia, machismo, homofobia e gordofobia) foi aos poucos constituindo, em minha forma de pensar e agir no mundo, uma robotizada reprodução desses preconceitos e que foram, aos poucos com estudo, leitura e encontros com pessoas mentalmente mais esclarecidas, se diluindo.

Ontem mesmo, antes de ler o texto da Fernandinha, eu me lembrei de quando era criança e ia com minha mãe à Igreja de Santa Terezinha, na Zona Norte de São Paulo, “caçar” empregadas domésticas. A igreja oferecia um serviço às dondocas locais, uma espécie de agenciamento de domésticas. No corredor lateral da igreja, escuro que só, diversas mulheres, em maioria negras, aguardavam sentadas serem escolhidas pelas patroas, que miravam aspectos físicos, cheiros e, por último, conversavam com a “escolhida”, tratando dos salários miseráveis e sem direitos trabalhistas.

Já em casa, a moça era levada ao quartinho, aquele quartinho úmido em comunicação com a garagem com bastante fumaça de monóxido de carbono, umidade das paredes, roupas para passar e brinquedos amontoados. Ao lado, um banheiro espremido, geralmente sem lâmpada, com um Ducha Corona preguiçosa – ela esquentava somente quando desejava, privada sem tampa, papel higiênico Primavera e sabonete Gessy. Lá em cima, em nosso banheiro, o chuveiro era Lorenzetti, o papel era qualquer outro que não fosse Primavera e o sabonete era Phebo. Se você não viveu nessa época, faça a experiência de limpar sua bunda com papel Primavera e talvez entenda onde estou querendo chegar.

Ela comia a mesma comida que a nossa, exceto os melhores doces. Mas tinha sempre que comer depois de nós, não importasse o horário. Não havia uniforme, porque minha família não tinha esse nível de sofisticação. De certa forma havia um uniforme: um farrapo da própria pessoa que era usado para aquela finalidade.

E assim iam e vinham diversas domésticas em nossa casa.

Também cresci ouvindo, entre meus familiares, piadas infames e pejorativas sobre negros, sobre gays, sobre mulheres. Confesso, como já confessei outras vezes publicamente, também contei muitas dessas piadas, que reproduzem e consolidam crenças.

Na faculdade de Medicina, apenas mais do mesmo. Preconceito, preconceito, preconceito. Filhinhos-de-papai acostumados com a vida boa e aprendendo com seus mestres a perpetuar a infâmia do desrespeito e da norma escravagista. Hoje vejo muitos deles por aí, ostentando “suas” babás arrastando carrinhos de bebês e passeando com seus cachorros pelas ruas dos Jardins. Adoro animais, mas uma das razões que me levam a não ter um cachorro é pela preguiça de passear com ele todos os dias e, mais do que isso, ser obrigado a pegar um troço enorme de cocô de Golden Retriever com um saquinho plástico de supermercado embrulhando a mão. Se você quer ter filho ou cachorro, por favor, carregue-os e limpe os cocôs deles.

Hoje, ao compartilhar o texto da Carol, tive minha Timelime do Facebook invadida por alguns (poucos, ufa!) comentários preconceituosos e alienados.

Eu nasci e cresci num meio alienado e, por algum tempo, me tornei um, agi como um. Mas, eu algum momento, eu cresci. Cresci de arrebentar os formatos, de poder ter empatia com o outro, de poder olhar a mulher, o homossexual, o transexual, o portador de deficiência, o gordo, o magro demais, o negro ou o cara de qualquer outra “cor” ou etnia ou origem geográfica como uma pessoa. 

Simplesmente uma pessoa.

Sim, ainda tenho que fazer um esforço para não cair no funcionamento automático de chamar a mulher que me desagradou de “vadia”, o sujeito de “filho da puta” ou “corno” ao invés de apontar e desabafar pela falha na atitude, não pelo aspecto físico ou de julgamento moral daquela pessoa.

Via de regra, essa mudança não ocorre naturalmente. Claro, existem aquelas pessoas iluminadas que nascem ou crescem  livres desses condicionamentos, provavelmente porque cresceram cercadas de pessoas que souberam ensinar, com a naturalidade dos pardais, a sabedoria da aceitação do outro.Mas em geral não é assim. Para mudar, é preciso ter algum tipo de contato, alguma capacidade de empatia que pode ser uma semente de mudança. E depois, bastante esforço.

Infelizmente ainda ouço de pessoas com quem convivo diversos comentários e opiniões bastante preconceituosos. Gente que em geral, consegue sobreviver dentro do quadradinho do politicamente correto, mas que cospe fogo preconceituoso quando é submetido a algum tipo de estresse ou frustração proveniente daquela pessoa “inferior”, de acordo com seu modo infame de vida. Eu poderia citar vários exemplos de acontecimentos como esse, mas de nada adiantaria. Pra mim, é como assistir “Que horas ela volta?” e falar coisas lindas sobre a atuação da Regina Casé e sobre o empoderamento e xingar o “preto-filho-da-puta” que te fechou no trânsito. Eu prefiro assumir que eu já fiz isso e me esforço para não fazer mais, não apenas para fazer bonito na foto, mas porque, para além do costume de ofender, não é realmente o que penso.

E por falar em contar histórias, eu fico, como disse Gonzaguinha, “com a pureza da resposta das crianças. Tenho duas colegas de trabalho, uma negra e outra branca, que são amigas. Suas filhas, crianças,  são amigas desde o nascimento. Numa festinha infantil, uma outra criança se aproximou e disse para a criança negra:

“Preto brinca com preto e branco brinca com branco”

A amiguinha branca empurrou essa criança, catou a mão da negra e bradou:

“Ela é minha amiga!”

Essa historinha diz tudo pra mim. Sobre como educar uma criança para ser preconceituosa e como, por outro lado, criar um indivíduo que mantenha em seu coração e na sua vida a pureza da infância, com cores, com diferenças, mas com equidade. Negar diferenças de cores, formas e desejos não é o modo correto em minha opinião. Certo mesmo é ensinar, desde cedo, que o mundo é uma palheta, uma aquarela de diferenças e que todas podem ser belas.


Fernandinha, você perdeu. 

Thursday, February 04, 2016

TE AMO, MÃE YEMANJÁ


* imagem de Yemanjá retirada do site http://artedearuanda.blogspot.com.br/2012/05/iemanja.html

Houve um tempo em que eu te repudiava. Achava que era por causa dos seus peitos grandes e caídos, porque arrastava pescadores inocentes para o fundo do mar com seu canto ou mesmo porque roubava os homens das suas filhas, deixando-as solteiras e mal sucedidas nas matérias do coração. Mentia. Eram apenas histórias que ouvia e fingia acreditar. Também não sabia compreender a sua grandeza. E pra mim, toda mulher, toda a cidade tinha quer ser filha da mãe das outras águas, as doces.

Foi quando minha amiga, filha sua, estampou igual bofetada uma verdade inconteste na minha cara lavada: eu não te amava porque tinha problemas com a maternidade, com a maternagem e todo esse monte de atributos e expectativas que depositamos na chamada arquetípica Grande Mãe. Faltou sim o carinho legítimo, faltou não ser usado, faltou ser protegido do monstro que me perseguia noites e dias, faltou ser defendido de ser roubado, faltou dar-me segurança. Não de você, mas da criatura que deveria ser a depositária dessa figura com seus atributos. Faltou tanta coisa. Faltas.

Demorei anos e idas e vindas às terapias para poder compreender que ninguém pode dar o que não tem, e mais anos ainda para poder perdoar essa falta advinda da impossibilidade. Foram embora a mágoa e o ódio que faziam sombra à sua aparição. Ficaram, como disse uma vez um dos mestres das terapias, as cicatrizes dos sofrimentos passados. E Deus pode enfim me presentear com a serena visão da sua face, do seu olhar sobre mim, da sua mão afagando silenciosamente a minha cabeça.

Deus, não o Deus supremo que tudo pode e tudo vê, mas o deus-em-mim, o todo-poderoso instinto da minha consciência que habita o fundo da minha alma.

Foram necessárias muitas peregrinações a sua primeira morada em Terra Brasilis, a Bahia de Todos os Santos, para aprender a te amar, respeitar e te aceitar como Mãe Suprema. Jamais esquecerei  o dia em que, estonteado pela sua vibração de amor e dando ouvido aos seus sussurros de mãe, desci as escadarias de seu palacete no Rio Vermelho e fui dar de encontro ao mar, o fabuloso jardim da sua morada.

Foi ali, Mãe, que a Senhora me presenteou com o presente dos presentes, a minha própria cabeça. A minha cabeça, tão sua, e me devolvia refeita, renovada ou, melhor dizendo, feita. Feita naquele momento em coral negro, para que eu lembrasse do Caboclo Pedra Preta. Feita negra para que eu lembrasse desse meu reencontro com essas origens africanas. Um coral preto, negro, embreuzado, ebanoide para lembrar o quanto essa cabeça pertence a esse grande pai negro, meu Pai Xangô.

Hoje eu caminho esses caminhos segundo seus desígnios e não me arrependo de nenhum passo dado, exceto por não ter começado antes essa minha jornada e ter me desviado ou parado tantas vezes.

Hoje minha cabeça e meu coração são seus. Da Senhora e de meus Orixás.


Te amo, Mãe Yemanjá.